Mostrar mensagens com a etiqueta LITERATURA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta LITERATURA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Arrábida por Frei Agostinho da Cruz...

(Da Arrábida)

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.
Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:

Arçam postos no fogo os corações.
(Frei Agostinho da Cruz)


Frei Agostinho da Cruz, nasceu em Ponte da Barca, Alto Minho, em 1540, e faleceu em Setúbal em 1619.Pertencia à ordem dos Capuchinhos Arrábidos, vivendo no convento da Arrábida como frade . O Duque de Aveiro deixou-o viver como eremita na serra da Arrábida, mandando-lhe construir uma cela para ele poder habitar em solidão e contemplação.)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

UNDER THE SUN OF TUSCANY


No outro dia vi um filme chamado "Sob o sol da Toscana".
Gostei muito! Por isso a minha curiosidade funcionou, e fui à net ver o que havia sobre o filme.

Descobri que era baseado num livro escrito por uma escritora americana, que contava como tinha ido viver com o seu marido Ed para Itália, e aí se sentira muito bem.



Depois de adquirirem uma villa maravilhosa na Toscana, (Bramasole) e de a restaurarem por completo, a escritora Frances Mayes deliciava-se a fazer cozinhados e ali receber os seus amigos.


A informação sobre o livro, tirei-a da net, pelo que "vale o que vale".

O livro, irei comprá-lo logo que esteja melhor destas horríveis dores de dentes que tenho tido.

Entretanto descobri no youtube, esta interessantíssima entrevista que a escritora deu no Canal National Geographic Live, e que vale a pena ouvir.




Pena é que seja em inglês e não tenha legendas, mas para quem sabe, mesmo muito pouco inglês, como é o meu caso, entende-se perfeitamente.

Muito curioso nesta visão que Frances Mayes tem da Toscana, é que parece estar a descrever muitas das  terras portuguesas.



O clima, as esplanadas, o bom vinho, a cozinha autêntica e boa, a vinda de emigrantes numa terra de gente que emigrava, as alterações que tudo isso implica, são aspetos por ela descritos, como se de Portugal estivesse a falar.

Vale a pena ver e ouvir, e por isso estou aqui a partilhar.

sábado, 1 de outubro de 2011



Em Bruxelas começa hoje o processo civil contra “Tintin no Congo”.




A história de banda desenhada criada em 1936, pelo cartonista belga Hergé, vai hoje julgamento na sequência de uma queixa de um cidadão congolês que pede a sua retirada do mercado por supostos conteúdos racistas.






“Não podemos em pleno século XXI admitir esse tipo de coisas como aconteceu antes. Estou convencido de que não podemos tolerar este tipo de racismo.






A editora Casterman e os responsáveis pelos direitos de Tintim no Congo argumentam que a história aborda uma ficção, escrita há mais de 70 anos, e deve ser interpretada como um registro daquela época.






O advogado de defesa considera que está aberta a caixa de Pandorra com este processo, o que equivale a que alguém faça o mesmo pedido contra Dickens, pelo seu conteúdo de elementos anti-semitas, contra Mark Twain, contra a Biblia.






Além da Bélgica, a obra já despertou polémica em países como Reino Unido, França, Suécia e Estados Unidos, onde diversos órgãos e autoridades públicas solicitaram sua retirada do mercado.






Georges Prosper Rémi, mais conhecido como Hergé, escreveu “Tintim no Congo” em 1930 para narrar as aventuras do célebre jornalista na sua viagem à antiga colônia belga.






Copyright © 2011 euronews

sábado, 12 de março de 2011

PORTUGAL E POLÍTICOS POR EÇA NO ANO DE 1900..


A Ilustre Casa de Ramires
ESCRITO EM 1900, ANO DO SEU FALECIMENTO, JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS ESCREVE NUMA DAS PÁGINAS DO LIVRO "A ILUSTRE CASA DE RAMIRES:

" Gonçalo escutara, num silêncio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrolo:
- Vocês não compreendem... Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia ... Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma «parceria políctica», que governa a herdade chamada Portugal ... Nós os portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo, e que pagam, e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria» , que recebem e governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por hábito de família, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na «parceria políctica», o cidadão português precisa de uma habilitação - ser deputado. Exactamentecomo, quando pretende entrar na Magistratura, necessita de uma habilitação - ser bacharel. Por isso procuro começar por deputado, para acabar como parceiro e governar ... Não é verdade, João Gouveia?
O administrador voltara á bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente aos goles.
- Sim com efeito, essa é a carreira ... Candidato, deputado, político, conselheiro, ministro, mandarim. É a carreira..."

E mais adiante na última página do livro Eça através da personagem de João Gouveia, enumera as caracteristicas de Gonçalo Ramires que são afinal as do nosso povo e de Portugal:

 "...franqueza, doçura, a bondade, a imensa bondade..."," ....os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente, muita persistência, muito aferro quando se fila á sua ideia...a genorisidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrupúlos quase pueris....a imaginação que leva sempre a exegerar até á mentira, e ao mesmo tempo um espiríto prático, sempre atento á realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar....a esperança constante nalgum milagre, no milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua um abraço a um mendigo ... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói que tudo arrasa ...Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada á sua velha Torre, há mil anos ...Até agora aquele arranque para a África ...Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
-Quem?

- Portugal"